Divulgação informativa e cultural da Escola Secundária/3 Camilo Castelo Branco - Vila Real

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Olaria de Bisalhães - Património Imaterial da Humanidade

Parabéns a todos os que trabalharam para este reconhecimento da olaria negra de Bisalhães.


Bisalhépio. ( de João Costa )

Um dos presépios já exposto  em vários espaços dos distritos do Porto, Bragança e Vila Real e criado  a partir de uma peça de barro preto de Bisalhães.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Winterrise

Sometimes it's like you can´t breathe
As much as you try
As much as you need
It seems that you´ll never be succeed.


You can feel something inside your heart
Not sure what it is
The only thing you know
Is that it tears you apart.


It gets worse everyday
You can feel the sadness in your veins
You start thinking about the pain
But please don´t let them take you away.


Red snow, Winterreise
Sad soul, poor thing
Can´t you see?
What have you become?


I still remember the day
you decided to leave
Since then
It´s a litttle bit more difficult to breathe.


Oh, but Red snow... Winterreise
The darknesss you became
They took your soul
And you left ... so easily.


Eva Oliveira, 10.º I

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Uma criação diferente



O pai de Michel de Montaigne, um nome que a posteridade consagrará como um dos maiores ensaístas de sempre, contrata um conjunto de humanistas e pedagogos para traçar o plano para a educação do descendente. O militar que chega a Presidente da Câmara de Bordéus, o descendente de burgueses, comerciantes de peixe fumado que compram o Palácio de Montaigne ao suserano arcebispo, o homem que no serviço (pelas armas) ao rei adquire o título nobiliárquico - o nome/apelido da família de Michel é Eyquem - entende que não basta a avidez da riqueza, a ambição do estatuto (que moveu os antepassados): há que servir a nação, em tempos de paz, como em tempos de guerra, agora através do bom conselho aos príncipes, forjado na melhor formação, numa paideia adequada, numa erudição indiscutível. A Biblioteca é, desde logo, bem recheada.
Michel (1533-1592), decide um grupo de sábios, é enviado (dos 0 aos 3 anos) para uma família de lavradores - que vive nas redondezas e área do Palácio de Montaigne -, para que possa conhecer, sentir, experienciar a vivência daqueles que há que servir em primeiro lugar - exótica, à época, e extraordinária intuição democrática do pai Montaigne. Com uma educação espartana, o alho, o toucinho, o pão escuro serão, para sempre, das preferências de Michel, agradecido à opção paterna por tal escolha (diferentemente de Balzac, que sempre se queixará da entrega da sua educação, a um polícia, até aos 4 anos). Depois dos 3 anos, o regresso a casa e o ensino humanista: uma inteira família, mais todos os empregados e funcionários, são obrigados a saber latim, pois, sendo este chave espiritual daquela época, é incutido à criança, sem contaminação do francês (natal). Portanto, é uma família que age em função da educação de uma criança, mesmo que constrangida a aprender o latinório. O método de aprendizagem, de resto, é bem diverso dos usos e costumes: sem livro e sem gramática, de acordo com os interesses, a vontade, as solicitações do educando. Sem constrições, nem disciplina, muito menos os castigos corporais e a severidade em voga. Tal teria um duplo efeito: dificuldades em resistir aos caprichos e aceitar a disciplina (no futuro); espírito livre, recusa de qualquer escravidão ou sujeição a um pensamento que não o próprio, semente lançada para se tornar no padroeiro dos livre-pensadores, o referente da defesa da cidadela, aquele íntimo sagrado (em cada um de nós) que ninguém está autorizado a profanar (nem, na verdade, consegue, mesmo que queira, porque esse núcleo sempre dependerá de cada um de nós). Mais extraordinário: em se considerando que acordar bruscamente é algo que é nefasto à criança, Montaigne é acordado, lentamente, suavemente, ao som de um flautista experimentado, de um virtuoso do violino, de um conjunto de músicos que tornam o momento abençoado. Um hábito que o ensaísta manterá ao longo da vida.
Todavia, para que se conheça a liberdade, para que esta possa ser bem reconhecida, é necessário que se saiba do seu contrário, a opressão. Aos 6 anos, e até aos 13, Montaigne será matriculado num colégio interno. Uma experiência da qual não guardou boas recordações: matéria impingida para ser regurgitada; professores aos berros para que os alunos repitam o que foi dito; matéria aos montes, sem a preocupação de perceber se o aluno em si a integra: "de que adianta ter a barriga cheia de carne", pergunta retoricamente Montaigne, se não há tempo nem espaço para a digerir? Se não faz crescer? Os professores também não dirão bem de Montaigne - mesmo naquele espaço mais severo, apenas uma vez, ainda assim, açoitado e "brandamente" -, e este não considerará que foram injustos na sua avaliação de um aluno apático: só mais tarde vivacidade e ânimo se juntarão no mesmo corpo. Mas, à semelhança de outros dotados, descobre o livro de poesia. Isto é, o manual não chega. Descobre uma série de escritores e nunca mais pára. E o seu saber, no mais puro latim, dos grandes clássicos, devolver-lhe-á o privilégio dos mestres. 
Aos 13 anos, o regresso ao regaço paterno do castelo. E, posteriormente, os estudos de Direito, em Toulouse ou Paris. Aos 20 anos termina a formação de Montaigne.

Pedro Miranda

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Notícias fictícias

Notícias fictícias do 7.º E criadas aquando do estudo da unidade 1 – textos não literários.


Alice Vieira na Camilo

No dia 3 de outubro, a escritora Alice Vieira visitou a Escola Secundária Camilo Castelo Branco de Vila Real.

  Alice Vieira foi convidada a visitar o Liceu Camilo Castelo Branco em Vila Real no passado dia 3 de outubro. A turma E do 7.º ano encarregou-se de acompanhar a escritora numa visita guiada, mostrando-lhe toda a escola. Um grupo de alunas desta mesma turma teve o privilégio de a entrevistar, tendo ela respondido a todas as perguntas com muita simpatia.
A escritora almoçou com os alunos e elogiou a comida e as cozinheiras do liceu. Já na parte da tarde, a famosa escritora lisboeta autografou alguns livros de sua autoria e ofereceu-os a muitos dos alunos que a acompanharam naquele dia. Os alunos adoraram estar com Alice Vieira na escola.

Trabalho realizado por Cláudia Magalhães, Inês Cardoso, Lara Matos, Marta Marques

Incêndio em habitação provoca um morto e quatro feridos graves

Na passada quinta-feira, dia vinte e dois de agosto, ocorreu em Vila Real, um incêndio numa habitação que provocou um morto e quatro feridos graves.

Por voltas das 4 horas da manhã do dia vinte e dois de agosto, o alerta foi dado por um vizinho aos Bombeiros da Cruz Verde de Vila Real. Foram enviados para o local dez bombeiros e duas ambulâncias,
Pensa-se que a causa do incêndio tenha sido um curto circuito. O pai das crianças, ao sair do banho e ainda com as mãos molhadas, ligou o seu telemóvel à corrente, quando foi  eletrocutado, acabando por morrer no momento.
Sendo uma casa antiga e o chão de madeira, não demorou até que a casa ficasse repleta de chamas e reduzida a cinzas. Felizmente, o resto da família conseguiu sobreviver, mas ainda assim com graves queimaduras e hematomas.
Trabalho realizado por: Beatriz Nunes, Tomás Cardoso, Rodrigo Monteiro, Pedro Vilela


Campeão nacional de Portugal soma mais um título europeu

Benfica conquista o campeonato nacional e a Liga dos Campeões, no dia 25 de maio. A equipa chegou ontem do aeroporto de Lisboa em direção ao Marquês de Pombal, onde foi bem recebida pelos adeptos.

O campeão nacional de Portugal, o Benfica, somou mais um título europeu, o que tornou a época 2015-2016 ainda mais gloriosa. A equipa chegou de Itália, onde decorreu a final da Liga dos Campeões, contra a Juventus.
Os jogadores chegaram ao aeroporto de Lisboa onde muitos adeptos os esperavam. Estes seguiram o autocarro até ao Marquês de Pombal, onde a equipa costuma celebrar as suas vitórias.
À chegada ao Marquês, uma multidão esperava-os. Foram muito bem recebidos pelos seus adeptos, pois  foram campeões nacionais e campeões europeus.
Não só os benfiquistas portugueses festejaram, mas também os que estão por todo o mundo, neste momento inesquecível.
O Marquês de Pombal ficou mais uma vez vestido de vermelho e branco.


Trabalho realizado por: Gonçalo Fernandes, João Balsa, Paulo Silva e Tomás Brandão.



Simulacro de acidente torna-se real

No dia seis de junho, na escola Secundária Camilo Castelo Branco em Vila Real, ocorreu um simulacro que correu mal.
Nessa mesma manhã, os alunos preparavam-se para o simulacro. Quando o alarme de incêndio tocou, os alunos evacuaram todas as salas como planeado, mas um aluno, que se apercebeu que tinha ficado para trás, desatou a correr para se juntar à turma.
Como consequência deste ato, o aluno tropeçou ao descer as escadas, ficando imobilizado. Perante a situação, as duas viaturas do INEM, o carro dos bombeiros e a viatura da polícia socorreram o aluno e levaram-no para o CHTMAD.

Aquilo que era apenas um simples simulacro acabou por ser uma situação bem real.

Trabalho realizado por: Fabiana Alho, Fabiana Santos, Margarida Barroso, Maria Faceira, Mariana Costa, Nuno Barros 

sábado, 1 de outubro de 2016

"Pais à maneira dinamarquesa", de Jessica Joelle Alexander e Iben Dissing Sandahl,


Síntese, análise e comentário
por Pedro Miranda


1.O modo como elogiamos uma criança, um filho, pode ser determinante para o tipo de inteligência que desenvolve: preferível é o foco ser colocado no processo, na tarefa ("esforçaste-te muito e deu resultado", "o que conseguiste foi fruto das horas que dedicaste"), mais do que na inteligência ela mesma ("és muito inteligente!"). No segundo dos casos, estar-se-á a contribuir para o forjar de uma inteligência fixa, com o (humano jovem) alvo de tais encómios a ficar mais dependente do elogio alheio (do que da motivação intrínseca), a desejar, de imediato, a perfeição (e, logo, a arriscar menos, a não querer, ou rejeitar, tarefas mais complicadas/arrojadas), a ter mais dificuldades quando dificuldades/obstáculos surgem; numa palavra, a ser menos resiliente. E sabe-se da centralidade da resiliência como fator fulcral no bom reagir às mais variadas (e adversas) circunstâncias da vida. Uma inteligência em desenvolvimento/crescimento é que é (e deve ser).

2.Criamos (demasiadas) dicotomias, falsas dicotomias, no nosso quotidiano (mental). Uma delas passa por criar uma cisão entre aprender e brincar. É que a brincadeira é uma forma de aprendizagem. Uma das múltiplas formas de aprender, aliás especialmente eficaz. Sobretudo, se livre, sem organização (institucional, prévia). Sem que tudo esteja preparado, decidido, cozinhado, sem que a criança intervenha. Sobretudo, se houver tempo e espaço. Se houver crianças diversas, de idades variadas. As crianças imaginarão brincadeiras, aprenderão a negociar entre elas (para que não haja desistências do jogo, para que não haja desinteresse), irão testar os seus limites (físicos, por exemplo, nas árvores), resolver problemas. Perceberão os outros. Os pais não deverão intervir a não ser que seja estritamente necessário. Há uma centralidade do brincar na Dinamarca, país com 5 milhões de habitantes, onde a LEGO - de leg godt, "brinca bem" - surgiu, na oficina de um carpinteiro, em 1932.

3.Mostrar vulnerabilidade, em sendo (esta) autêntica, claro, em uma conversa com a descendência pode ser muito útil: aproxima, gera confiança, mostra como se ultrapassou um período, ou situação, menos feliz. Assume (-se) que não apenas a felicidade existe, passamos por várias emoções e sentimentos. As crianças gostam de escutar estas histórias (dos mais próximos), sentindo a verdade das mesmas. 

4.No Reino da Dinamarca, como explicam Jessica Alexander e Iben Sandahl, em Pais à maneira dinamarquesa, as histórias, os contos, os filmes são muitas vezes sombrios, carecem de um happy end, que julgam desnecessário, aliás. Não só porque a vida nem sempre é cor-de-rosa, não apenas porque é bom que sejamos capazes de identificar e lidar com tais situações, como, por vezes, apresentam, revestem tais narrativas o carácter terapêutico de nos recordar (implicitamente) os privilégios que a nossa existência contém (no confronto com o trágico do filme, ou conto infantil apresentado). Ler, ler muito para crianças, diferentes estudos o comprovam, contribuem para gerar empatia (nestas).

5. Desde 1973, a Dinamarca, nos mais diversos estudos e inquéritos acerca da felicidade, surge, quase incessantemente, como país líder nesse âmbito determinante. Embora muitas aproximações às causas que conduzem o país a esse lugar possam ser aduzidas - como um olhar político para um Estado Social generoso, por exemplo -, a educação, e, em particular o modo como pais e filhos se relacionam, pode ser uma determinante a destacar. E aqui um valor fundamental: o país alça a Humildade a lugar cimeiro na sua pauta axiológica.

6. As autoras de Pais à maneira dinamarquesa distinguem entre pais autoritários ("é assim porque eu mando", "fazes isso porque eu digo"), que, não raro, geram filhos com bons níveis de desempenho escolar, mas com índices de medo, ansiedade, stress,locus interno, autoestima não satisfatórios, e pais autoritativos (progenitores que fixam regras claras, também, mas que fazem da democraticidade, do respeito pelas opiniões dos descendentes, pela sua valorização elementos determinantes, não raro conseguindo contribuir para filhos nos quais se detetam não apenas bom rendimento escolar, como autoestima, locus interno, resiliência muito consideráveis).

7.A democracia aprende-se, também, na escola: alunos e professores podem definir, e definem,  em conjunto, regras/padrões (comportamentais) para um inteiro ano escolar e levam-nas a sério - uma turma, por exemplo, compromete-se, em caso de barulho de um seu elemento, a levantar-se, em uníssono, para dez voltas à sala a bater palmas (eficácia e autocontrolo). E um Professor pode combinar e/ou fixar, metas para o aluno, não apenas de índole académica, mas de competências pessoais e sociais. É a pessoa toda - e não apenas o estudante, ou, por exemplo, o desportista - que está em causa.

8."Numerosas empresas dos EUA estão a formar os seus quadros no sentido do reenquadramento" (p.72): perante uma dada situação, conseguir percecioná-la/compreendê-la de modo novo, de tal sorte que se alcance o filtrar do que não interessa em uma dada circunstância (e, portanto, se abdique de um pessimismo desesperado, e se (e)labore em sentido construtivo), eis o desiderato. Note-se: "o reenquadramento altera a química do cérebro, bem como o modo como interpretamos dor, medo, ansiedade" (p.75). E a linguagem é, justamente, um poderosíssimo instrumento de reenquadramento: "a linguagem é uma escolha e muda o que sentimos" (p.76/78). Pode/deve auxiliar - o reenquadramento - a criança a não se concentrar no que não consegue, mas, ao invés, no que alcança (tem capacidade de alcançar). Aqui, importa ter especiais cuidados: muito do que pensamos de nós mesmos advém do que nos disseram, repetiram (à exaustão) em idades precoces. A imagem que construíram (e nos passaram) de nós mesmos. Ora, este instalar de crenças nos filhos ("ele é antissocial", "ela é terrível a Matemática", "ela não é muito estudiosa") inculca, ou é suscetível de promover, um autoconceito (fixista) que contém elementos potencialmente perturbadores, ou, no limite, destrutivos. Separar a pessoa do problema revela-se aqui decisivo.

9.Segundo a lógica dinamarquesa, alunos com diferentes performances no domínio académico (mais brilhantes, ou não tão conseguidos a esse nível), ou em termos de competências sociais (tímidos, ou gregários) devem juntar-se, na medida em que, desta forma, poderão apreciar as diferentes qualidades de cada um, e valorizá-las devidamente (empatia).

10. A expressão hygge (lê-se huga) tipicamente dinamarquesa, significa aconchego, e remete para o ambiente de relacionamento - há velas, bolos e chá; não há televisões ligadas, ipad, iphones e gadjets que tais -, no qual família e amigos - o mais importante preditor de felicidade -, estão em locus amenus, situam-se em um estádio (ambiência) em que os problemas ficaram à porta, o eu cedeu ao nós, a dimensão colaborativa está muito presente, a sensação de qualidade de existência exaltada. Os dinamarqueses partem do preconceito de que a criança é boa: escolhem um modo de agir a partir desta premissa. Não acreditam na conceção antropológica mais pessimista, o Homem mau e egoísta, guiado, exclusivamente, pelo interesse próprio: "a empatia é visível em todo o tipo de animais" (p.102); "estamos programados para a empatia" (p.102); "a empatia não é um luxo, mas uma necessidade" (Daniel Siegel). Nas Escolas, há programas, por exemplo dos 3-8 anos, como o Livre de Bullyng, em que os alunos aprendem, em cartões, a interpretar expressões faciais, emoções, sentimentos - sem os julgar. É muito raro um pai dinamarquês criticar uma criança, junto ao filho. Um dos pilares, para os dinamarqueses, de gerar empatia, passa por não fazer julgamentos dos outros.

11. Os professores dinamarqueses são formados segundo o princípio differentiere - o que significa, formados para olhar cada aluno como uma pessoa com necessidades específicas (p.128). Não se trabalha para um aluno médio, indistinto, uniforme, abstrato (uma das críticas de Joaquim Azevedo ao modelo educativo português). E nas escolas, como em casa - é muito raro observar-se um pai dinamarquês aos berros com a prole -, procura-se evitar os problemas a castigá-los. Como? Por exemplo: alunos hiperativos podem sentar-se em almofadas terapêuticas insufláveis, o que as ajuda a concentrar-se nas aulas(p.128).

12. A generosa missão que consiste em ser pai demanda um grau elevadíssimo de auto consciênciaNomeadamente, quanto aos padrões de resposta (educativa), as reações relativas a momentos indesejáveis dos meninos, soluções, estas, tantas vezes incorporadas desde a própria infância (e do modo como foram educados). Por vezes, tal é assumido como o que deve ser feito, a resposta adequada, as coisas como elas são. Sem discussão. Não há, em tais casos, a interiorização que a resposta que foi dada poderia ter sido diferente: "se for a Itália, verá crianças a jantar às nove da noite e a correr pelos restaurantes quase à meia-noite; na Noruega, os bebés são regularmente deixados a dormir ao ar livre com temperaturas negativas; e os miúdos belgas têm permissão para beber cerveja"(p.23). O ideal do espectador imparcial (A.Smith) se pode ser posto em causa - na sua real operatividade -, reclama, pelo menos, uma espécie de educação comparada (para evitarmos armadilhas de uma perspetiva excessivamente particularista). Os pais dinamarqueses perceberam que as lutas de poder, por tudo e por nada, no interior da relação familiar, só deterioram o ambiente entre todos ("na comida, sempre que puder dê uma alternativa ao seu filho", p.135; quer dizer: valerá uma exaltação exasperada a recusa da couve de Bruxelas?).

13. A punição física é, ainda, permitida em 19 estados norte-americanos. O castigo corporal é aceite em colégios privados de 50 estados dos EUA. Alguns estudos sugerem que 90% dos americanos usam o castigo físico como forma de disciplinar os filhos. Na Dinamarca, o fim da punição física nas escolas deu-se em 1967 (em Portugal, tal apenas sucedeu em meados dos anos 90, do século passado).

14. Certamente, questões como a absoluta saída do nosso lebenswelt (mundo da vida) como, em realidade, uma impossibilidade (mesmo práticas diversas daquelas com que mais familiarizados estamos poderão ser, por nós, aceites justamente na medida em que sejam, ainda, compatíveis com essa - nossa - mundividência e um modo determinado de a apreender/traduzir/interpretar); a ideia de non faccere (parental) bastante acentuada, quanto ao modus faciendi das brincadeiras não poderá contraditar a ideia de necessidade de limites que as crianças solicitam (ainda que inconscientemente) aos adultos em que mais confiam?; o enfoque na dimensão do locus interno, como significando um controle daminha vida, a vida que decorre de fatores que dependem penas de mim, se apela a uma responsabilização (e rejeitam, a partida, a ideia de um determinismo de um destino, e da impotência face a fatores de diferente natureza que impendem sobre a existência), não conduzem, outrossim, e em pólo oposto, ao ignorar de diferentes elementos, exógenos ao indivíduo, e que constrangem, inapelavelmente, o seu devir, e ainda a uma ausência de necessidade do outro, de uma completude (que me falta), de uma dádiva, uma graça, um dom que não depende de mim (e não gerará disfuncionalidades de outra natureza; uma excessiva (auto)culpabilização)?; mais: não será este tudo depender de mim quase que contraditório com a noção de que a perfeição não existe (noção, de resto, vertida na obra; se tudo depende de mim, qual o limite a que devo ater-me?); quando se aborda a questão da empatia, não faltou assinalar quanto esta, em excesso, pode ser potenciadora de manipulação (identifico-me de tal modo com o sentir do outro, que uso esse conhecimento para o manipular), ou de uma corrosão interna (sinto de tal maneira o mau estar do outro que isso perturba, em permanência, o meu próprio estar, incapacitando-me, mesmo que parcialmente, em desempenhos de diferente índole, como o profissional)?; embora se perceba, dada a filiação de nacionalidade de uma das autoras, o livro, sempre que neste se estabelecem comparações entre países (de ordem educativa, de mentalidades, cultural) fixa-se, quase em exclusivo, na relação Dinamarca-EUA ("o país mais individualista do mundo", segundo um estudo mencionado na obra): não teria sido possível oferecer mais literatura comparada neste domínio?; os bons resultados em alguns dos âmbitos exibidos, não deslustram, evidentemente, aproximações outras aos mesmos problemas (reflita-se, a título de ilustração, no modo como em Portugal experiências têm sido conduzidas, separando alunos, em função da sua performance académica, com resultados encorajadores ao nível do desempenho global, escolar, dos alunos; mas aqui assinale-se: os objetivos podem ser diferentes, e no olhar dinamarquês, eventualmente, uma maior preocupação com a dimensão empática de alunos - que, com a mistura de alunos aludida, verificam, no seu semelhante, qualidades positivas, ainda que diferentes das suas, face a um outro foco, este no resultado escolar puro e duro, em uma outra realidade nacional/cultural); evidentemente, procurou-se, em Pais à maneira dinamarquesa, oferecer um lastro cultural específico e, nesse sentido, percebe-se que "os pais dinamarqueses" tinham que ser tomados como uma espécie de massa indiferenciada que prossegue o mesmo ideal e os mesmos caminhos (educativos) para o atingir (ainda que alguns possam contestar a ausência de mais nuances, ou um traço que possa parecer muito cor-de-rosa da realidade retratada). 
Seja como for, há um extraordinário acervo de reflexões, intuições, práticas, estudos, instituições que nos são proporcionadas nesta obra e que resultam em uma sabedoria de experiências feita que merece consideração e estudo. E os dinamarqueses são os mais felizes do mundo há 40 anos.
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[Iben Sandahl é psicoterapeuta, especialista no aconselhamento de famílias e crianças, Professora de formação, trabalha numa clínica privada perto de Copenhaga; Jessica Alexander ensina Comunicação e Técnicas de Escrita, formadora cultural, colunista, com bacharelato em Psicologia]




quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"Homem fatal", crónicas de Nélson Rodrigues, por Pedro Miranda

A prova de que não precisamos de estar sempre de acordo com o que lemos para nos deleitarmos, seguirmos a volúpia, exercício hedonista, com uma escrita que nos prende e contagia, está no volume de crónicas de Nélson Rodrigues, agora finalmente publicado em Portugal (pouca coisa do autor havia chegado até nós, apesar das referências quase míticas que o seu nome sempre rumorejava), selecção de Pedro Mexia, sob o título O homem fatal (Tinta da China). Trata-se da "arte da frase", como escreve Abel Barros Baptista, e de um humor soberano, seguro, fatal. Sem condescendências, nem indolência. Vital. Por exemplo, sobre os inúmeros feriados,  pontes, momentos de ociosidade dos brasileiros, Nélson Rodrigues sentencia, com a magnífica impenitência de quem assesta uma fatwa necessária, caricatura que na hipérbole, junta crónica de costumes a uma reivindicação do literário, o exagero necessário para criar distância e civilidade: "O brasileiro é um feriado (...) Era uma terça-feira e - note-se - o primeiro dia útil depois de sexta, sábado, domingo e segunda de Natal. Imaginei que, exausto da própria ociosidade, o brasileiro estivesse, no escritório, na oficina ou na pedreira, fazendo a sua pátria (...) E eu já via, com olhos de imaginação, uma praia deserta, sem uma mísera alma ou de calção ou de biquini. Todavia, quando dobro a avenida Atlântica, eis o que vejo: do Forte de Copacabana ao Vigia, era só uma multidão que daria para lotar várias vezes o maior Fla-Flu". Ou, no seu anti-comunismo, a pérola forjada para retratar a cegueira dos seus compatriotas, face ao estalinismo: "Sim, o que se sentia, aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer «travesti» do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um amor quase físico, uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de «o Velho». E essa paixão era de um sublime ignóbil" (p.40). Ou, ainda, na injusta,mazinha, pérfida ironia sobre D. Hélder da Câmara que, segundo Rodrigues, olharia para o Céu apenas para saber se deve sair à rua com guarda-chuva, numa crítica a uma teologia política que, da sua perspectiva - a meu ver errada, sobre isso escrevi uma tese, mas isso aqui não interessa -, ficava pela imanência, sem remeter para a transcendência (então e a vida eterna? , perguntar-se-ia ao bispo. Há fome no Nordeste, responderia). Apegado às formas mais tradicionais de fé - "minha infância foi a época dos valores nítidos, sim, dos valores precisos. Céu era Céu. Deus era Deus. O Diabo era o Diabo. Por outro lado, o céu era a evidência do sobrenatural e, repito, por trás do azul residia o sobrenatural. E, quando o sujeito olhava para o alto, um arroubo subia de suas entranhas" (p.35) -, viu esta, a fé, tornar-se obsoleta, uma extravagância, algo tão inactual como o espartilho da Belle Époque. E, no entanto, muito esporadicamente, a missa de Domingo agarrava-o - "Ah, quando entro na igreja, e vejo o sono dos círios nos altares, e o frêmito das rezas, sinto angústias tremendas. Há em mim o despertar de velhas culpas e a memória de não sei que abjecções", p.45 - levando-o a verberar os padres progressistas: numa dessas histórias, agora mais hilariantes do que irónicas, quase sempre intercaladas com outras narrativas no seu interior, como parêntesis-matrioskas, dá conta de, numa das eucaristias dominicais em que ingressara, ter ouvido o padre dizer que "criança não peca", sendo que, em fechando o círculo da crónica, entremeada por boutades graciosas, lembra uma velha indignada com o cura que em confissão lhe pergunta a idade: "60? Aos 60 ninguém peca". Soma-se à gargalhada (que damos) a verdade antropológica que contem afiada: moral da história, sem responsabilização, a pessoa não existe, e ela tem direito a reivindicar seu pecado, quer dizer, perdão e graça; existiu quando obrou (mal), e essa dignidade não podem roubar-lha ("Doeu-me que alguém visse na criança um ser mínimo e tão amoral como um bichinho de avenca (...) E, mexendo o café, tinha a sensação de que o sermão degradara a criança. Se é verdade que um menino está isento do bem e do mal, então é um pequenino canalha", pp.45-46), ainda que a despeito de um bonzismo bem intencionado, a criança imaculada que só existe no manto diáfano da fantasia kitsh: "Lembro-me de coisas que eu fazia, aos oito, nove anos, e que me causaram lesões de sentimentos ainda não cicatrizadas (...) [Ao dar uma estalada noutra criança sua congénere] Fui varado por um sentimento de culpa que ainda hoje, quase meio século depois, me persegue (...) Desejo notar que a consciência infantil tem um dramatismo que nós, adultos, já perdemos". Para mim, num século (XX) em que o rosto adquiriu, nos contornos que a filosofia conseguiu imprimir-lhe, uma forma manifestandi de um Outro, cujo significado só poderia ser um não matarás(dignidade absoluta), e talvez porque na sensibilidade por certo permeada por essas leituras, sempre este me assomou como intocável de facto, e o pudor impedia toná-lo objecto de bofetadas, foi muito curioso e interessante encontrar esta reflexão enxertada na crónica vinda de perpassar: "Dar na cara. Não sei se nos outros povos e nos outros idiomas a bofetada tem a mesma transcendência. Mas, para o brasileiro, a bofetada é sagrada. Criei-me ouvindo o adulto dizer: «Se alguém me der na cara, eu mato, mato!"». De aí o seu estremecimento décadas depois de violar o compromisso sagrado de uma interdição alçada a imperativo.
Sem politicamente correctos, procurando o nu, o cru, a verdade sobre si, Nélson Rodrigues dá conta, em outra intensa crónica, da humilhação na escola: todos os dias, leva uma banana, que não sabia ser tão magro manjar ("No terceiro dia, comecei a ter vergonha da banana. Fosse prata, ou maçã, mas era banana. Nasceu em mim, então, a utopia do sanduíche de ovo", p.24) Dia após dia, é a gemada na sandes do colega, escorregando-lhe pelo queixo abaixo, que o derrota - mas outros há que levam goiabada e bife. Já com mulher, adulto, pede a sandwich com ovo à empregada, nunca mais esquece. Tal como a exposição à frente dos colegas, a professora a chamar e a colocá-lo de frente para o quadro, depois face a face com os colegas ("Estou de frente para o quadro-negro, de costas para a classe. E ela [a professora]: - «Vira, vira! Fica de frente!». estou cara a cara com os outros"), por fim identificado com as lêndeas detectadas no seu cabelo («Não disse?» Vira-se para a classe: - «Eu sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!». Levou-me para a sala da directora: - «Esse menino não pode ficar com os outros! Pega piolho nos outros!». A directora, de óculos, papada, fez uma boquinha de nojo. Depois da aula, levei para casa um bilhete da professora. E mudei de calçada para não passar pela porta de Lili"). Sente-se, palpa-se, o ambiente e o sentimento de quem alguma vez foi sujeito a semelhantes suplícios - que cheira mal, que deve afastar-se dos outros meninos («Não quero menino sujo na minha classe. Já basta o Nélson». As meninas me olhavam, e eu tinha de novo o sentimento de nudez pública"); compreende-se melhor esta condição, a literatura pode iluminar - mesmo que a redenção da ternura fraterna (ou a irmandade na desgraça), um tesouro manejado com tanta descrição e parcimónia, se abeire também: "E, de repente, vem uma pretinha lá da minha aula. Pára diante de mim, ri para mim. Olha para um lado, para outro e para trás. Estávamos sós, maravilhosamente sós. Seu riso não tem os dentes da frente. Diz baixinho: - «Eu também tenho piolhos, lêndeas»" (p.30).
Fome fome foi entre 1930-1935, para Nélson Rodrigues. O lado dickensiano, como o próprio assinala (e Pedro Mexia, na Introdução, corrobora) está, pois, bem presente, sendo que as memórias desses cinco anos estão em carne viva. A cada passo, em alguma boutique, Rodrigues pede um copo de água, por obséquio. E, nesse interim, "não estava bebendo, estava comendo água" (p.34). Se o cronista, ao referir que "o sujeito que não come não se revolta (...) Fui a menos indignada das fomes. Eu me sentia inteiramente desfibrado", pode dizer-se que quem se revolta alguma coisa tem na barriga, interpretação inversa é susceptível, igualmente, de lobrigar-se: não fora a fome, e revoltas outras emergiriam. Mas a coisa não é apenas política: "se me aparecesse a Ava Gardner, de Salomé, eu continuaria incomovível. Durante esses cinco anos, não namorei. Fui incapaz de um sentimento forte. A fome esvaziou-me; e eu me sentia oco, sem entranhas, como um autopsiado". Um retrato cruel de quem, em certo momento, foi remetido para a margem e sabe que "certos pundonores, certos brios, exigem um salário e as três refeições" (p.34). 
De igual modo, no mesmo texto em que é implacável com Sartre, e relatando uma visita deste ao Brasil, atribui-lhe razão quando pergunta: "então e os negros?". Bem podemos, de novo o dedo na ferida, falar em democracia racial que à pergunta onde estão os negros? não sabemos responder. Sim, Rodrigues o moralista, considera o prefaciador, alguém que denuncia a esquerda, mas sem demasiadas preocupações ideológicas. Talvez porque, o escanção da frase, regressamos ao início, seja o desígnio que o determina fundamentalmente, controvertido posicionamento acerca da relação com a arte, a relação artista-mundo, ele que era um declarado admirador de João Guimarães Rosa: "Obsedado como um Flaubert, estava mais interessado na cadência de uma nova frase do que em todo o Vietnã" (p.28). E ainda há muitas crónicas para ler.